sábado, 14 de julio de 2012

A YPF não é nossa, mas tanta bandeira envenena o ar


Autor: Jon Juanma

Tradução: Fabiana Oliveira 
Hoje, o poder público vem a ser, pura e simplesmente, o conselho administrativo que rege os interesses coletivos da clase burguesa.” Marx, Karl e Engels, Friedrich (Manifesto Comunista, 1848).

Não me importa YPF, Espanha e Argentina. No meu DNI consta que sou cidadão espanhol e no meu passaporte: europeu. Importa-me tanto como se afirmassem que sou marciano ou habitante da Terra Media. Sim me importam, no entanto, os espanhóis e os argentinos. E me incomoda que se queiram enfrentar por interesses alheios. Me importam os que trabalham. Preocupam-me muito aqueles que, com o suor em sua cara e/ou suas mãos, lutam para ganhar a vida. Aqueles que criam toda a riqueza não herdada da natureza. Importam-me muito todos eles, sem me preocupar se os documentos delas afirmam que “são” espanholes, argentinos, brasileiros, alemães, nepaleses, chineses ou mongóis. Meu coração bate com aqueles que devem esforçar cada minuto dos seus dias para sobreviver, possibilitando que os seus seres queridos amanheçam de seus dias para sobreviver e que tenham um outro amanhecer onde, talvez, e tão somente talvez, possam respirar com ele o maravilhoso formigamento da esperança. Aqueles que ainda sonham que pode/deve existir um futuro melhor, aqueles que não perdem a fé na nossa raça humana, para que algum dia deixemos de ser macaquinhos com sapatos. Estes sim me importam e muito.
Considero-me comunista, socialista e democrata (radical). A ordem é indiferente. Digo “radical” pela perversão que tem a palavra “democrata” quando a empregam/prostituem os ditadores das finanças e das dívidas externas. Estes que não passam de lixo disfarçados com ternos e gravatas, os que calcinam os povos desde a tranquilidade de suas jacuzzies e seus hotéis cinco estrelas. Deveria ser o suficiente dizer que sou democrata e automaticamente o publico entenderia que, por lógica, sou também socialista e comunista. Mas vivemos num mundo de pernas para o ar, na mistificação permanente e, às vezes o lógico deve fazer malabares para não tornar-se visível aos olhos da maioria, como se transformando em algo sem sentido, isso quando não diretamente uma autentica loucura. E isso não é culpa somente dos que estão no topo estão, nós do fio vermelho temos nossa responsabilidade, nossas imundícies históricas que os exploradores souberam aproveitar e, como é iminente deles: explorar.1
E porque digo isso? Ontem o governo do PP aparecia anunciando altivo, nos seus cúmplices meios de comunicação, que o governo argentino está afetando os interesses de uma empresa espanhola (Repsol) por nacionalizar uma parte da sua filial argentina (YPF), afirmando que isso é como se meter com a Espanha e com todos os espanhóis. Eu digo a vocês que eles mentem, caluniam e sabem disso. Repsol é uma companhia privatizada pelo anterior governo do PP de Aznar e YPF pelo governo argentino de Meném (ambos ex-presidentes, amigos atualmente). Paradoxalmente, ou não tanto, Ménem era do mesmo partido a que pertence atualmente Cristina Kirchner, Presidenta da República e debutante “nacionalizadora”2, que também votou a favor da privatização neste então3. E uns e outros seguem mentindo e insultando a profissão dos poucos políticos honestos que ainda existem no mundo. A imundície enfiada nas suas gargantas de humanos que atuam como marionetes ao serviço dos grandes prestigiadores. Políticos da infrapolítica que destroem qualquer vestígio da sua humanidade gravemente ferida, encharcados na hedionda miséria dos que limpam o traseiro, dia pós dia, dos magnatas enriquecidos, ou seja: dos ladrões e assassinos de colarinho branco, donos de armas (dividas externas) com silenciadores (meios de desinformação). A vocês, governo do PP, governo de “patriotas” de meia-tigela, pergunto: quantos centos de milhares de famílias espanholas são expulsas de suas casas porque aos bancos estrangeiros pareceu mais rentável ter a eles fora que dentro de seus lares? É ou não, também, meter-se com os espanhóis? É meter-se com os espanhóis quando as multinacionais estadounidenses o alemãs radicadas na Península demitem a centenas de milhares de trabalhadores dos seus postos de trabalho? É ou não meter-se com os espanhóis quando atualmente 25% deles vivem sob esta monarquia em que reina um caçador de elefantes e sub existem sob o umbral da pobreza ao mesmo tempo que nosso Estado segue sendo uma das maiores economias da Europa? É ou não é meter-se com os espanhóis pagar cada dia mais juros aos compradores de dívidas estrangeiros enquanto que, para pagar a eles, se cortam os salários e se destrói tudo o que é público? É ou não é destruir a nossa sociedade permitir que as multinacionais farmacêuticas exijam a privatização dos hospitais públicos para que cresçam os seus negócios enquanto que se deixa que os pacientes menos rentáveis morram nas suas casas?
Por outro lado, aos meus/minhas irmãos/irmãs argentinos/argentinas, digo algo que muitos já sabem: o governo do estado argentino não é nem socialista, nem revolucionário, nem nada parecido, por mais que honre e coloque quadros do Che Guevara em algumas das recepções oficiais. Um Che que certamente não estaria nem no seu partido e nem entre as filas de corruptos, oportunistas e, na melhor das hipóteses: reformistas. O governo argentino não nacionaliza e recupera as ações da YPF por fortaleza própria, mas pela debilidade das outras burguesias decadentes. Porque no expropriam aos capitalistas argentinos, estadounidenses o brasileiros? Kirchner e companhia são pró-burgueses, mas baseiam o seu modelo capitalista em um desenvolvimento regional-popular de certo tipo obrigado pelas dinâmicas históricas de acumulação de capital mundial e a própria pressão interna dos “seus” trabalhadores argentinos que já não suportam mais o papel de habitantes de uma semi-colonia, como foi Argentina por décadas em que ajudava a esmagar aos seus habitantes mais empobrecidos com a ajuda das ex-metrópoles coloniais. É por isso que exigem melhoras e agora o governo Kirchner pode aproveitar redirecionando uma parte da mais-valia mundial que se extrai sempre, com toda a violência capitalista, do roubo dos trabalhadores destes países que vivem justamente debaixo do nível médio mundial de exploração.
O sistema capitalista internacional deve se reordenar por suas recorrentes crises de sobreprodução (já foram, pelo menos, umas vinte) e as novas acumulações de capital (principalmente na Ásia) estão obrigando a re(des)equilibrar todo o sistema. Desta maneira, os papeis entre países enriquecidos, semi-periféricos e empobrecidos estão mudando. Repartem-se os mesmos disfarces, mas mudam os portadores. Capitalismo 100%, destruição criativa: mudamos tudo para que nada mude. Algumas colônias ou neocolônias passarão a ser países semi-periféricos “acomodados” e outros antigos semi-periféricos acomodados ou enriquecidos humildes, como Espanha, se transformarão em semi-periféricos. Os EUA mais cedo ou mais tarde descenderão e China e Índia ascenderão como potencias hegemônicas pela sua própria luta de classes interna e sua crescente acumulação de capital fruto do desmantelamento industrial promovido pelos capitalistas dos antigos países enriquecidos. Mas isto não significa que o capitalismo está perdendo, pelo contrário, segue ganhando, pois lamentavelmente a maioria dos trabalhadores do mundo ainda não aprendemos que nossa única pátria possível é a união de todas as formigas dos formigueiros vilipendiados na luta legítima por um formigueiro mundial, digno e em paz. Não esperamos ingenuamente que os mesmos gigantes que nos esmagam vão ter piedade da nossa sorte e nos coloquem caritativamente a salvo. Ou eles ou a gente. 
 
Enquanto isso, reina a preguiça, a imundície e o crime neste Reino de Bananas chamado Espanha. Os criminosos andam soltos estre tantos filhos da mãe. Filhos da puta que estão destroçando as vidas do povo e que me perdoem todas as assalariadas do sexo que são mil vezes mais dignas que todos estes que insultam as maternidades honradas do mundo. Cada jornada que passa, cada uma mais dura, tediosa e pesada, nos exigem mais e mais sacrifícios. E o fazem sem perder a cara-de-pau. Ao povo tranquilo, que gosta da paz e dos momentos bons da vida, lhes pedem a base de golpes o que ninguém em sano juízo deseja: fazer uma revolução. Exatamente o que ninguém busca até que não veja uma outra saída. Exigem-nos isso a base de triturar-nos as vidas, de apagar todo o futuro, de pisarem nos títulos que tanto esforço e estudo nos custaram, de demitirem-nos das empresas que ajudamos a construir, de demolir nossos hospitais e as escolas dos nossos filhos, de cagarem-se sobre o seu futuro, pisoteando a dignidade desde a fragilidade das aulas... Nos estão pedindo uma revolução, nos estão pedindo para ter a desculpa e matarmos a todos uns aos outros: as formigas espanholas contra as de lá e as de lá contra as daqui. Nos estão pedindo revoltas, desejam alvoroços, colocar os três ou quatro gatos “revolucionários” de sempre atrás das grades. Mas desta vez vamos ser mais espertos que eles e vamos fazer uma revolução mundial. Devemos acumular forças e fazer ebulir a água quando menos estejam esperando, mas no lugar de águas nacionais serão oceanos internacionais. Quantos mais sejamos, menos serão as baixas, mais pacífica a revolução mundial necessária. É a nossa única oportunidade. Vamos trabalhar a cada segundo por essa causa, com a força das palavras agora que ainda podemos empregar-las, amando aos povos e não deixando que estes malditos magnatas da burguesia nos façam enfrentar uns contra os outros pelos seus pérfidos interesses de classe. 
 
Nossos interesses, no entanto, coincidem com o futuro do gênero humano; os deles: com o fim da espécie. Os nossos encaixam com a necessidade de conseguir a verdadeira democracia e um mundo onde a liberdade e a justiça deixem de ser falsas promessas ou dolorosas mentiras, para transformar-se por fim em principio de realidades. De presente, em presente, nos apresentamos para conquistar nosso futuro. Aqui os que acreditamos na raça humana. 
 
Não faltemos ao nosso encontro histórico.
    
* Jon Juanma é o pseudônimo artístico de Jon E. Illescas Martínez, licenciado em Bellas Artes e investigador da FCM de Sociología e Comunicação na Universidade de Alicante e da Universidade Complutense de Madrid.
Artigo finalizado em 17 de abril de 2012. O presente artigo tem direitos Creative Commons, é publicado e reproduzivel sempre que se cite a autoria, se conserve seu conteúdo e formato na sua integridade e que não exista interesse lucrativo. 
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Notas:
1. Me refiro as revoluções que acabaram parindo novas explorações, e das que temos que aprender muito e evitar bastante.
2. No século XX e na teoría política, nacionalizar não significa que o Estado tenha a maioria mais um por cento das ações, mas 100%. São coisas dos tempos de hegemonia neoliberal, que faz com que os pastores alemães reformistas e adestrados pareçam lobos ferozes bolcheviques.  
3. Ver no Periódico Tribuna: http://www.periodicotribuna.com.ar/10958-el-dia-que-cristina-kirchner-hizo-lobby-a-favor-de-la-privatizacion-de-ypf.html (2012/04/17).